sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Noite de Natal



Noite de Natal

Rogel Samuel

Magro, longa barba, vestido da sujeira que se encruava no seu corpo como uma nova pele, as roupas em farrapos fétidos, o velho mendigo naquela noite saiu do lugar onde morava feito de pedaços de papelão e latas encontradas no monturo em frente. Ninguém sabia se ainda tinha família. Saiu e olhou para os lados, prosseguiu pelo espaço deserto, chuvoso. A noite escura mais realçava sua aparição de fantasma e ele via, ao longe, a grande árvore de natal da prefeitura acesa numa praia distante. Depois ele desceu a encosta que contornava o lixão aonde ia como os outros todos os dias buscar alimento, tomou a estrada que ia dar no Aeroporto velho e caminhou sem rumo. Era noite de Natal. Nas dobras de sua consciência esquecia quem era, quem tinha sido e aquela estrada deserta descrevia um arco que se estendia até a amurada do mar. Mas vagamente se lembrava que quando criança pulava numa pequena praia e se lançava ao mar do Nordeste antes de vir para o Sul. Como por um cortinado que se abria enevoado, ele reviu sua cidade natal, os irmãos e primos, a mãe Aurora, o tio Rigoberto. Sim, a noite estava escura, mas se via, ao longe, a grande árvore de natal da Prefeitura acesa.
Naquela estrada deserta ele descia no meio da noite. Não havia ninguém naquela zona, e ao longe os automóveis da noite passavam pela estrada rumo à costa Leste da cidade. Não havia ninguém por perto além do céu escuro e do ruído das pedras úmidas pelas curtas ondas do mar calmo e sujo. Ele desceu a escadaria velha molhando os pés. Uma vaga sensação de alegria inundou seus olhos de lágrimas, pois ele se lembrou da Ponta do Caranguejo onde sua família se banhava aos domingos. A noite estava escura e ele via, ao longe, a grande árvore de natal da prefeitura acesa.

Nenhum comentário: