Era noite de natal.
Neste último natal. A Edilene tomou o barco no Paraná da Eva, em Itacoatiara, a 270 km de Manaus, com seus dois filhos, Heloisa de 4 anos e Kevin, de sete. Era noite escura de natal, neste último natal. No meio da viagem, durante a travessia do rio, o barqueiro, um jovem de 16 anos, resolve matar Edilene, jogando-a na água, para apropriar-se de sua bolsa, onde havia R$ 90,00. Empurrou-a na água. Na luta que se seguiu, a bolsa também caiu. Perdeu-se. O barqueiro volta para Itacoatiara. Como as crianças gritam e choram, ele as jogou no rio. «'Eu os joguei no rio porque eles estavam gritando muito chamando pela mãe e isso me deixou irritado». Entretanto, Edilene, a mãe, conseguiu salvar-se a nado. Deu com um banco de areia, e foi achada naquela mesma noite por outros dois meninos que brincavam. Eram outros dois meninos, mas não eram os seus. Os seus desapareceram. Era noite de natal. Sim, era.
(A notícia está nos jornais de Manaus, hoje).
ROGEL SAMUEL
A praça é quase circular. As mais altas são as palmeiras, cujos leques se perdem e não se vêem, no espaço entre a folhagem robusta e diversa das outras árvores. O sorveteiro velho apita como Chacrinha. Um garoto, vestido de negro, corre, abre os braços, em pleno imaginário vôo. Um jovem casal lambe sorvetes, compassados. Mosquitos zumbem. Perturbam. Picam, no fim da tarde. Ele sente calor. Cansaço. Vozes longínquas. Um estranho silêncio invade a atmosfera, atravessando todos os ruídos. Algo desce do céu, do sol. Tudo fica em paz, na massa dos outros sons, um túnel de silêncio. Sob a luz do poste de iluminação, ele abre o jornal. "Caminhamos para um conflito mundial", ele pensa. "Nada fazemos. Fingimos, fugimos do problema. Nações ricas bombardeiam, sem se saciar, as nações do povos pobres. Os impérios castigam, exterminam. A reação do pobres, que se recusam a morrer, é o terrorismo. O mal avança. Não conseguimos detê-lo. Os ricos atacam não apenas com as bombas, mas com os bancos, como na Argentina arrasada. Místicos proféticos anunciam a guerra mundial para 2005. Para mim, ela já começou, ele diz. Estamos brincando com o mais sério, como caranguejos que disputam entre si o espaço da panela que está no fogo, mas que ainda não começou a ferver. O número dos que querem a guerra é maior do que o número dos que a temem. Vários povos já foram exterminados, como os povos indígenas brasileiros. A fase da "exploração" do homem pelo homem já é coisa do passado. A nova lógica conclui que há populações inúteis, insolventes, que "é necessário começar a matar". Daí os grandes massacres, as operações genocidas, como no caso do Iraque, da Bósnia, da Palestina, do Tibet. No Tibet toda uma população, toda uma cultura milenar foi destruída, os templos viraram pó, as preciosas bibliotecas queimaram, as mulheres esterilizadas, os monges torturados, num dos maiores genocídios da história recente que não se divulga, ninguém sabe, ninguém vê. A guerra está dentro de nós, no ódio que circula nas nossas veias ferozes. Os abusos sexuais tem maior capacidade de nos escandalizar do que os crimes da guerra. O cinema na TV americana exibe as piores perversidades possíveis, mas uma cena de minuto de sexo explicito provoca inúmeras ações judiciais, por parte das escandalizadas mães de família, horrorizadas com o "atentado violento ao pudor" que a guerra não provoca. Os ativistas franceses vão às ruas por quê? Contra Le Pen? Em janeiro de 1933, Hitler foi eleito pelo voto direto com maioria esmagadora dos votos. Amamos a guerra, a destruição, a morte. Há guerra até entre torcida de futebol, com feridos e mortos. Esse o "nosso" mundo. Lugares sagrados, como o Afeganistão e Belém estão em plena guerra. No Afeganistão, ou no Paquistão, havia o antigo reino de Oddiyana. Ali nasceu Padmasambava, o Precioso Guru, - um dos maiores nomes sagrados do Oriente, que estabeleceu o budismo no Tibet no Século Oitavo. Em Belém nasceu Jesus".
Ele fechou o jornal, trêmulo. Voltou a olhar a praça, vazia. A noite caía. Somente um casal adolescente se beijava, esquecidos. Ficou a admirar a candura daquele beijo. E voltou a ser feliz.
Rogel Samuel
Porque poucas eram as oportunidades de experimentar o que ele sentia naquela noite tão incomum: a junção do ar poluído da cidade grifando as palavras, quando até pensar doía, e quando as dobradiças da cabeça se transformavam naquela circunferência aparentemente vazia, ou melhor, cheia do árduo vácuo do pensamento de dor dissimulado nos ruídos da noite fendida pela aceleração forte dos ônibus negros e aqueles radiação multicolorida de faiscantes anúncios, tudo muito bom, tudo muito moderno - a junção da poeira dos ventiladores por onde ele passava infiltrando-se para dentro no limiar de histórico pânico de uma cidade assentada naquela horizontalidade em que tudo se subtraía das coisas e eram tudo involuntárias armas se recompondo mais além da sua jaqueta de couro justa, cintada, sim, que eram poucos os atos que ele ainda podia representar, como passar a palma da mão sobre os olhos (para não chorar), ou meter o dedo no bolso, levantar a camisa sobre os ombros e, veloz, seguindo na motocicleta pela lâmina de asfalto molhada da rua negra por onde retornavam os pesados caminhões em direção à ponte, e daqueles edifícios abandonados vinha e fazia-se ouvir o tilintar insistente e longínquo de um telefone no escuro e uma viatura da polícia escura - eram sete pessoas até agora, contando com os policiais, os homens da calçada e o chofer passando pela área do poste de iluminação mas com pouca luz, ou melhor, a luz não penetrava a barreira da fumaça densa que a tudo envolvia com sua noite - o caminho era na praça deserta por onde ele se vai, projetado - elisão de lugar - não está lá, não foi, nem sei - elisão de tempo e de pessoa - e então, sem saber como, ele pode ver o que nem mesmo por pensamento, ou palavra ou gesto continuava a ser, o que tinha sempre sido até aquela hora: um negativo, um não, sem solução. E fez a única coisa a seu alcance: recordou-se de si, personagem de ficção. (15/2/87).
Rogel Samuel
O velho estaciona o automóvel preto no meio fio, tranca-o
cuidadosamente. Tem as chaves nas mãos. Desce a velha amurada de pedra da Urca. O velho parece feliz. Tira a camisa, as calças. Tira o sapato. Esconde a roupa toda numa lapa do muro. Em cuecas, mergulha nas águas.
Nada, afasta-se da margem. O velho parece feliz. Afasta-se cada vez mais. Em sua cadência lenta de velho, continua. Só os braços agora aparecem, fora da linha d'água. Eu o observo, atento e curioso. Não há ninguém para vê-lo, além de mim. Estamos sós, o sol abre seu leque de diamantes. Ele se afasta cada vez mais, eu me afasto, vou para meu
destino. Continuo a vida. Dias depois, saindo de casa, passo pelo mesmo muro: o automóvel preto continuava lá.
* * *
Meu pai tocava piano, e passou a vida estudando violino. Certa vez, viajava pelo interior do Amazonas, como sempre fazia, e começou a praticar a partita de Bach. Ele usava sua própria lancha, acompanhado de um jovem caboclo calado, índio silencioso, que lhe servia de marinheiro.
Meu pai aprendera a tocar violino em Strasburgo. Desde criança. Era francês. A partita tinha de ser repetida, horas repassavam as partes difíceis, A viagem prosseguia. Suas viagens eram longas, ele se ausentava de nossa casa às vezes por um mês, a serviço do BASA, onde era "fiscal rural", ou seja, quem verificava os seringais e plantações de juta.
Passaram-se muitos anos.
Um dia, bem mais velho meu pai, viajava pelo Rio Juruá teve de pernoitar onde se realizava a festa. Bebia-se e dançava-se durante a noite, e ele foi convidado, no lugar todo funcionário público (ou privado) era "autoridade". Uma indelicadeza recusar.
Num intervalo da festa um dos músicos se apresentou:
-- Não me conhece, sr. Samuel?
Meu pai não se lembrava. Aí o homem perguntou:
-- O senhor ainda toca aquela musiquinha?
E tocou a Partita n. 1 de Bach ao violão.
FRANCISCO E FLORÊNCIO
Rogel Samuel
Eram amigos de infância, seminário e Marinha.
Meninos, andavam sempre juntos. No seminário também, e os padres desconfiavam daquela amizade. Na Marinha não se separaram nunca.
Vieram de Imperatriz, no Maranhão.
Anos depois, Florêncio casou-se com Rosa, foi para Salvador.
Francisco ficou com Creusa, que já tinha dois filhos.
Desta forma Francisco e Florêncio se separaram pela primeira vez.
O primeiro filho de Florêncio se chamou Francisco.
O primeiro filho de Francisco, Florêncio se chamou.
E Francisco começou a beber. Cada vez mais.
Desinteressou-se de Creusa, dormia fora, brigava.
Era conhecido como 'encrenca fácil'.
Um dia, Francisco e Creusa se separaram. Sem briga.
Ele mudou-se para a casa de Florêncio, seu amigo de sempre.
Salvador.
Por dois dias se livraram das crianças para festejar. E beberam e cantaram.
No terceiro dia, Florêncio foi ao trabalho, mas teve de voltar do meio do caminho.
Ao subir as escadas do sobrado já ouviu gemidos.
Entrando no quarto, encontrou os dois nus, em orgasmo.
Cego, Florêncio empunhou uma baioneta que estava num banco e começou a atacar os infiéis.
Perseguiu Francisco ensangüentado e nu pela casa e escadarias até à rua.
Francisco gritava. Agonizou no meio da rua.
Então Florêncio começou a chorar.
E é essa a estória que assim mesmo se passou conforme o digo eu, o Narrador.
Esse foi o fim.
Fim.
Este caso verdadeiro.
Quando era professor de escola conveniada com a Marinha conheci Francisco, que foi meu amigo.
Diz Camões:
- "Não cometera o moço miserando
O carro alto do pai, nem o ar vazio
O grande Arquiteto co'o filho, dando
Um, nome ao mar, e o outro, fama ao rio.
Nenhum cometimento alto e nefando,
Por fogo, ferro, água, calma e frio,
Deixa intentado a humana geração.
Mísera sorte, estranha condição!" -
Não sei por que vejo neste caso a expressão de sexualidade deslocada. Florêncio traído pelo amigo, não pela esposa. Sua fúria se desloca. Francisco transfere seu objeto.
Como do mundo, a mente humana e os mistérios.
Vejam agora os sábios na escritura,
Que segredos são estes de Natura.
Noite de Natal
Rogel Samuel
O velho naquela noite finalmente saiu de casa. Se é que aquilo onde morava era uma casa. Vivia só. Nem sabia se ainda tinha família. Abriu a porta a medo, olhou para os lados. Prosseguiu pela calçada deserta e chuvosa. A noite era escura e ele via, ao longe, a grande árvore de natal da prefeitura acesa. Virou a esquina e se perdeu. Nas dobras de sua consciência esqueceu-se de todo.
Aquela rua descrevia um arco que se estendia até a amurada do mar. Quando criança, o velho pulava dali para a pequena praia e se jogava no mar. Como por um cortinado que se abria, ele reviu seus irmãos e primos, sua mãe Aurora, seu tio Rigoberto. A noite era escura e ele via, ao longe, a grande árvore de natal da prefeitura acesa.
Aquela rua deserta e o velho descia no meio da noite. Não havia ninguém ali e ao longe se viam os raros carros que passavam na estrada de asfalto rumo à costa Leste da cidade. Não havia ninguém ali além do céu escuro e do ruído das pedras úmidas cortadas pelas curtas ondas do mar calmo. O velho desceu a escadaria velha arrastando os pés. Uma vaga sensação de alegria inundava seus olhos de lágrimas, pois ele sentia ali a curva do caranguejo onde sua família se recreava aos domingos. A noite era escura e ele via, ao longe, a grande árvore de natal da prefeitura acesa.
O Conto
Rogel Samuel
Começou a escrever às oito da noite.
Era o prometido.
O primeiro, da seção de contos, do hipertexto de literatura.
Uma fina dor atravessa as têmporas, era como uma lâmina, uma linha, refletia na nuca.
Estava escrevendo nervosamente.
Dedilhava, no escuro do ciberespaço.
As idéias não nítidas.
Há muitas Eras ele tinha aquela estória pronta. Tolice esconder aquilo.
Sentado, o computador na espera, perdia-se no tempo, não se concentrava no fato, escolhia palavras.
Talvez não devesse contar. Mas, na necessidade de atender ao Browser, resolveu arriscar.
Às oito e meia, seus dedos magros tentaram mover o último parafuso da gaveta do armário, fechada.
Ele vinha fazendo aquilo, no espelho do monitor.
Pressionava a unha ferida na fenda, para afrouxar.
Lá dentro estava o Texto, muito antigo, o manuscrito, ele podia começar a reescrever.
O parafuso resistia.
Ele quebrou pequena lasca da unha. Dali se desprendeu, de seu dedo, por debaixo da unha, um líquido, gomoso e grosso. Uma grossa gota daquilo caiu no teclado. Ele limpou o dedo com a boca, passando a língua, ou o que fosse aquela parte do corpo.
Inteiramente só, via-se no reflexo do monitor.
Pelo Racionamento, o edifício da Companhia estava com todas as lâmpadas apagadas.
O pessoal da limpeza já tinha saído.
Um vento negro agitava as vidraças, vindo do fundo escuro do centro morto da cidade deserta.
Ele parou às oito e quarenta da noite, e agora dormia, desmaiado, na cadeira, sem alento.
Quando acordou, a madrugada já tinha avançado.
O saco daquilo de sua refeição estava caído no chão, e aberto, perto de onde corriam duas baratas.
Tinha passado a noite ali, à espera daquilo.
Quando acendeu o monitor, seu conto estava escrito, mas naquela linguagem arcaica, estranha.
O corpo pesado, inerte, era um cadáver.
Seus braços desapareciam na escuridão da mesa.
Desejava um café, poderia fazer um café, deveria haver um café ali, na cafeteira.
Ele, entretanto, mergulhava naquela apatia, a indiferença, o estado de esquecimento, tédio.
De repente a luz do monitor apagou e ele já não se viu refletido ali.
Sua face desapareceu no escuro, sua imagem não era mais visível no vídeo, como uma sombra.
Sacudiu o mouse com a mão.
Foi em "editar", selecionou tudo, e deu um "delete".
No dia seguinte foi encontrado morto. Havia um saco de batatas fritas no chão.